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Trecho de Romanceiro da Inconfidencia em Homenagem
ao Heroi da Independência do Brasil pela
sensibilidade da poeta Cecília Meirelles
ROMANCE DO
ANIMOSO ALFERES
Pelo monte
claro,
pela
selva agreste
que
março, de roxo,
místico
enfloresce,
cavalga,
cavalga
o
animoso Alferes.
Não há
planta obscura
que
por ali medre
de
que desconheça
virtude
que encerre,
- ele, o
curandeiro
de
chagas e febres,
o
hábil Tiradentes,
o
animoso Alferes.
Por aqui,
descansa;
ali,
se despede,
que
por toda parte
o
povo o conhece.
Adeuses e
adeuses,
sinceros
e alegres:
a
amigos, mulatas,
cativos
e chefes,
coronéis,
doutores,
padres
e almocreves...
Adeuses e
adeuses,
- que rápido
segue,
a
mover os rios,
a
botar moinhos
e
barcos a frete,
lá
longe, lá longe,
o
animoso Alferes.
A bússola
mira.
Toma para
leste.
Dez dias de
marcha
até
que atravesse
campinas
e montes
que
com olhos mede:
tão
verdes...tão longos...
(E ninguém
percebe
como
é necessário
que
terra tão fértil,
tão
bela e tão rica
por
si se governe!)
Águas de
ouro puro
seu
cavalo bebe.
Entre sede e
espuma,
os
diamantes fervem...
(A terra tão
rica
e -
ó almas inertes! -
o
povo tão pobre...
Ninguém que proteste!
Se fosse
como ele,
a
alto sonho entregue!)
Suspiram as
aves.
A tarde
escurece.
(voltará
fidalgo,
livre
de reveses,
com
tantos cruzados...)
Discute.
Reflete.
Brinda
aos novos tempos!
Soldados,
mulheres,
estalajadeiros,
- a todos
diverte.
(Por todos
trabalha,
a
todos promete
sossego
e ventura
o
animoso Alferes.)
No rancho
descansa.
Deita-se.
Adormece.
Penosa, a
jornada,
mas
o sono, leve:
qualquer
sopro acorda
o
animoso Alferes.
Deus, no céu
revolto,
seu
destino escreve.
Embaixo, na
terra,
ninguém
o protege:
é
o talpídeo, o louco,
- o animoso
Aferes.
Mas, dourado
e roxo,
o
campo alvorece.
Desmancham-se
as brumas
nos
prados celestes.
Acordam as
aves
e
as pedras repetem
músicas,
rumores,
o
dia que cresce.
Move-se a
tropilha:
que
outra vez se apreste
o
macho rosilho
do
animoso Alferes.
Adeuses e
adeuses...
talvez
não regresse.
(Mas que voz
estranha
para
frente o impele?)
Cavalga nas
nuvens.
Por outros
padece.
Agarra-se ao
vento...
Nos ares se
perde...
(E um negro
demônio
seus
passos conhece:
fareja-lhe
o sonho
e
em sombra persegue
o
audaz, o valente,
o
animoso Alferes.)
(Venham,
venham, mantém: ganhará quem perde.
Venham,
que é o destino
do
animoso Alferes.)
De olhos
espantados,
do
rosilho desce.
Terra de
lagoas
onde
a água apodrece.
Janelas,
esquinas,
escadas...-
parece
que
há sombras que o espreitam, que há sombras que
o
seguem...
Falas
sem sentido
acaso
repete,
- pois sente,
pois sabe
que
já se acha entregue.
perguntas,
masmorras,
sentença...
Recebe
tudo
além do mundo...
E em sonho
agradece,
o
audaz, o valente,
o
animoso Alferes.
Cecília
Meirelles
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