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Discurso de
Márcia Pereira de Campos, presidenta da FDIM, feito na ONU
durante a 53º Comissão do Estatuto da Mulher, em 03 de março
Em nome da FDIM, trago a
este plenário da ONU, a situação do trabalho e salário das
mulheres, os problemas enfrentados e os efeitos sobre a
integração de suas famílias. Vivemos em uma conjuntura
grave de crise financeira internacional, cujos presságios vinham
se avolumando e hoje é uma dura realidade para as economias
globais.
A recessão chega às
economias dos EUA, Japão e da Europa. Agrava-se a situação
das mulheres a cada dia que passa, com a crescente perda de seus
empregos. Em todas as partes do mundo é alarmante o número de
pessoas que estão sendo demitidas de seus empregos.
Os últimos índices de
desemprego do Reino Unido mostram que as mulheres estão perdendo
o emprego duas vezes mais rápido que os homens. Nos últimos três
meses de 2008, os dados oficiais mostraram que 36 mil homens
perderam seus empregos, enquanto que 53 mil mulheres foram
demitidas no mesmo período. Como sua vaga é mais custosa para o
patrão, que tem que arcar com custos como a licença maternidade
entre outros, elas são prioridade na hora da demissão.
Relatório da OIT, “Panorama
Laboral para América Latina e Caribe – de 2008´´, antecipa que,
“devido à crise, até 2,4 milhões de pessoas poderão entrar nas
filas do desemprego regional em 2009” -, somando-se aos quase 16
milhões já desempregados.
Na maioria dos países houve
retração salarial; as mulheres trabalhadoras têm sido mais
afetadas, com taxa de desemprego 1,6 vezes maior que a dos
homens.
O desemprego juvenil, em
2008, em nove países, foi 2,2 vezes maior do que a taxa de
desemprego total.
Hoje, em 54 países a renda
per capita está mais baixa do que há dez anos. Em 34 países, a
expectativa de vida diminuiu. Em 14 países, mais crianças morrem
de fome. A falta de saneamento básico matou mais crianças na
década passada do que todos os conflitos armados desde a II
Guerra. Na África, onde o colonialismo resistiu até o
crepúsculo do século XX, 200 milhões de seres humanos estão
enredados num cotidiano de fome, doença e desamparo.
A crise mundial na área de
alimentação, provocada pela especulação nos preços dos
alimentos, catapultou o preço mundial dos alimentos básicos,
monopolizados nas mãos de três multinacionais norte-americanas.
Existem no mundo cerca de
870 milhões de pessoas que morrem de fome e delas, dois terços
são mulheres e uma parte expressiva se encontra nos países
africanos. Segundo a FAO, outras 850 milhões encontram-se
ameaçadas: a cada ponto percentual que sobe o índice mundial dos
preços dos alimentos, mais de 16 milhões de pessoas se somam às
cifras macabras da fome e da desnutrição.
Nos EUA, os despejos
atingiram 750 mil famílias de classe média e 1 em cada 6
proprietários está sem condições de arcar com suas dívidas e
perdendo seus imóveis para os bancos, ficando sem ter onde
morar. Hoje 17% dos imóveis a venda nos EUA, são imóveis
retomados pelos bancos.
As mulheres recebem salários normalmente 30% menor para o mesmo
trabalho realizado pelos homens, praticamente inexistem
investimentos para sua qualificação e profissionalização, não
tem garantias para que se cumpram as leis de proteção ao
trabalho feminino e à maternidade. As fábricas, empresas ou os
Estados, através dos impostos recolhidos, não investem em
creches, pré-escolas, assistência à maternidade e aos filhos,
não se constroem estruturas coletivas de apoio aos serviços
domésticos.
Empregos parciais e
precários têm crescido significantemente entre as mulheres ao
mesmo tempo em que o desemprego e o emprego informal são entre
as mulheres o dobro do que entre os homens. O nível de idade
para aposentadoria aumentou, despesas com o sistema de saúde e
de segurança social são postos nos ombros da classe
trabalhadora. Grandes empresas estão forçando a mulher
trabalhadora a prometer que elas não engravidarão por um período
específico ou do contrário serão demitidas.
Consideradas seres de
segunda categoria, somos usadas para o barateamento da força de
trabalho. Ao longo dos tempos fomos “sujeitas à escravidão
doméstica, sufocadas pelo trabalho mesquinho, braçal, pesado,
embrutecedor, na cozinha e em geral, pelo isolamento da economia
doméstica”.
Existem 2.8 bilhões de
pessoas ao redor do mundo vivendo abaixo da linha de pobreza,
70% delas são mulheres.
A luta das mulheres nesse
momento, passa por uma forte mobilização por definir o papel dos
Estados nesse momento de crise.
São necessários mecanismos
de prevenção e controle sobre a manutenção dos empregos e
salários. É imperioso garantir o crédito para a produção e para
o consumo. Somos totalmente contra a flexibilização para redução
do custo do trabalho por meio da retirada de direitos dos
trabalhadores.
As chantagens e as ameaças
de demissões coletivas praticadas pelos setores empresariais, em
especial pelas multinacionais, para tentar reduzir os direitos
dos trabalhadores constituem um atentado contra as conquistas
dos trabalhadores e trabalhadoras.
É hora dos Estados baixarem
as taxas básicas dos juros, gerando mais recursos para
investimento interno, investir nos salários, em mais vagas de
acesso ao trabalho, na agricultura, criar bancos de fomento nos
Estados para que eles possam emprestar dinheiro para a produção.
São iniciativas imperiosas e
urgentes.
Ao redor do mundo diversos
governos da Europa, América Latina, a China, a Rússia, dentre
outros, já vem tomando medidas para enfrentar essa crise e
impedir que essa ameaça leve a economia de seus povos à
falência.
Na China um pacote econômico
de US$ 292 bilhões para construir ferrovias, vai gerar empregos
para os trabalhadores chineses e facilitar o escoamento da
produção agrícola barateando custos.
No Brasil, se enfrenta essa crise com mais produção, fazendo com
que o dinheiro público irrigue a construção civil, obras de
saneamento, agricultura, indústria automobilística, a pequena e
média empresa brasileira. Com o Plano de Aceleramento do
Crescimento já determinou que 30% dos empregos gerados com a sua
implantação, devem ser destinados às mulheres que para isso
serão capacitadas.
São medidas urgentes que
podem ser assumidas em cada país, com iniciativas que gerem
empregos e com determinações por parte dos governos no sentido
de que dinheiro público que for emprestado para as empresas tem
que ter como contrapartida não haver demissão dos trabalhadores.
Confiamos que os Estados vão
se mobilizar na luta pela manutenção dos empregos e nós mulheres
seguiremos apontando caminhos e saídas para essa crise com o
referencial no ser humano e no desenvolvimento de nossos países.
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